Máxima V


A
morte é a consequência de uma das características do tempo, o qual: possibilita, revela e destrói.
Essa destruição é constante, na medida em que, tudo o que pertence ao tempo é destruído pela sucessão de cada instante. Deste modo, a morte, mesmo não nos sendo apresentada como uma realidade, apresenta-nos representações de si. A melhor maneira de encará-las é destacando aquilo que pode ser proveitoso nelas1.



1A melhor forma de encarar está referida nas máximas anteriores quando se fala do passado. O passado é o momento já destruído, i. é, é no passado que a representação da morte se encontra.

6 comentários:

Eris disse...

Bastante consistente! ainda não tinha lido com atenção, mas faz imenso sentido.

Não concordo inteiramente com o lugar que dás a essas representações. Nem sempre as coisas são assim tão lineares, se pensares no sentido projectivo, isso não se processa da mesma maneira.

Uma pessoa que não encare o futuro como um horizonte de multiplicidade de possibilidades,e encare o presente como uma dimensão estanque, percepciona representações da morte que se lhe apresentam como presentes, mas que não são mais que apresentações projectivas, que tomam forma na suposição ou fantasia (que tem lugar no futuro), como veículo de libertação de uma convicção negativa ou fantasma (que pertence ao passado), traduzido por uma pretenção presente de acção(positiva ou negativa), que quebre o plano de letargia, dando-lhe resolução.

Em condições excepcionais, a apresentação de representações pode ser transposta para outra dimensão que não a passada, e ainda que não seja a futura, é certamente uma em que o tempo não toma parte.

A noção presente de tempo, e a forma da relação que o sujeito estabelece com este, determinam a sua capacidade de viver, progressivamente.

Se não houver lugar a esta passagem (de tempo), ou se este não for correctamente percepcionado, não há a consequente destruição sucessiva de instantes, e logo não há possibilidade de progresssão. O movimento da vida pára. Se não se puder regredir, também dificilmente
se progride.

A dinâmica entre lembrança, memória e recordação, tem também certa importância para o esclarecimento de um pontito ou dois do que disse acima.

Recomendo de Kierkegaard: "O Banquete-in vino veritas" e o "Tratado do Desespero"

Recomendo também que pesquises os conceitos de «projecção» e «recalcamento» entre outros da psicanálise que ilustram bem, se aplicados, o que tento dizer.

(eu posso emprestar algum Kierkegaard e alguns livros que te poupam o esforço na segunda sugestão)

Estou a gostar imenso do desenvolvimento que tens dado às máximas.

Um abraço, volta ao meu blog que eu volto certamente ao teu em busca de mais!(e cada vez melhor)

Manuel Jerónimo disse...

Hmmm, não concordo de todo em todo. A morte não está no passado, mas antes no futuro. É exactamente o oposto. Passo a explicar sucintamente: O Alberto quer ir aos correios e planeia fazê-lo amanhã. Ora esta hipótese constitui-se como uma possibilidade futura, isto é, um caminho possível para atingir um objectivo. Para tal, o Alberto tem de garantir que nada o impede de ir aos correios amanhã. Contudo, descobre que amanhã os correios estão fechados. há aqui uma renúncia, um não. Uma atirar para o presente algo que só se apresenta efectivo no futuro. A nossa vida é vista deste modo, mas de um modo total, ou seja, não consistente apenas a uma ou duas possibilidades, mas sim quanto a toda a mancha da existência, que se constitui como uma teia quase infinita de possibilidades futuras que nos puxam para o depois. A morte constitui-se à partida por um lado como mais uma possibilidade entre essas, mas por outro como uma possibilidade que anula todas as restantes - como um fogo que deita por terra toda a estrutura. Por aqui se vê já, que a morte, enquanto possibilidade é algo que está sempre presente enquanto futuro, como algo que não pode ser excluído de cada momento.

O que ainda pode ser discutível é a notícia da morte, isto é, existir um indivíduo que não tenha notícia da morte ou não a compreenda como uma possibilidade para si e portanto que não a contabilize nas suas contas futuras, mas não posso compreender o que seja tal individuo enquanto que penso em homens.

Pastor disse...

Concordo com o que dizes, mas isso não anula nada do que escrevi, isto porque tu tens uma perspectiva infinita do futuro, e quando esta é quebrada, deparas-te com uma impossibilidade de ser feliz.

Tens de ter em conta o objectivo destas máximas, "para ser feliz".

Logo, ao vermos no passado a anulação de várias possibilidades (uma representação da morte, pois esta anula todas as possibilidades), não nos devemos arrepender das escolhas, e, como tal, não nos preocuparmos com isso, (nem com a morte em si). Essa é toda a minha tentativa, até ao momento, de apresentar um "manual de instruções" para se ser feliz.

Agora repara: O Alberto sabe que amanha pode ir aos correios, ao banco ou ao shopping, mas não pode fazer tudo ao mesmo tempo, então selecciona os correios e anula as outras possibilidades. Se não se sentir arrependido, provavelmente será mais feliz. Mas se o Alberto tinha todas essas possibilidades e no entanto descobre que tem uma doença que o aniquilará em poucas horas, finalmente deixa de ter uma perspectiva infinita do futuro, achas que ele se sente feliz? Provavelmente sentir-se-à angustiado, nunca feliz.

Logo, para nós a morte está no futuro, sem dúvida, vemos as suas representações no passado, sem dúvida, mas o meu objectivo é que não sejam levadas em conta como se tivéssemos sido condenados à morte.

P.s.: Obrigado por usares o "Alberto", hahaha.

Grande abraço

Manuel Jerónimo disse...

Sim, mas isso é uma mentira. Tu estás condenado à morte. Compreendo o que dizes, mas estás a partir de um pressuposto que não é o correcto, como se a morte fosse um acrescento. A morte é real. Tu vais morrer, e tudo o que fazes aqui é inútil. E as regras para a felicidade, antes de mais precisam de dois pontos: o que é a felicidade e a certeza de que vais morrer. Só a partir desta certeza é que se pode construir uma vida significativa.

Pastor disse...

Eu é que não vejo como possas conciliar o que aqui dizes com o que comentas no post seguinte. Enquanto aqui afirmas que a morte é uma anulação da vida ao ponto de torná-la numa inutilidade, no outro tentas afirmar que não existem certezas de uma total não existência após a morte.

E repara que eu nem sequer toco nesse ponto. Eu é que cada vez concordo menos com o que dizes, até porque está a deixar de fazer sentido.

Outra coisa, eu não procuro explicar o que é a felicidade, mas sim demonstrar um caminho que possibilita um ambiente mais propício à mesma. Poderia dar-te uma perspectiva pessoal, a minha interpretação do que ela possa ser, mas não penso que isso vá acrescentar alguma coisa, porque o importante aqui é criar condições, e não, tentar dizer o que é.

Quanto à morte ser, ou não ser, um acrescento;

Dificilmente encontro no que escrevi onde possa te-lo dito, mas se quiseres, não penso que essa teoria possa ser posta de lado à partida sem uma análise mais perspicaz. Repara que a morte do outro não deixa de ser morte, e de certeza que vai acrescentar algo à tua vida, se não o faz, pelo menos, devia.

Manuel Jerónimo disse...

O ponto é que a morte não tem nada a ver com a não-existência. E acho que é esta a tua confusão. A morte, enquanto que é real, é simplesmente o fim disto, o que quer que isto seja. É isso, é o fim. E isso está sempre sempre sempre presente. E aliás, deve estar! Ainda que tentemos fugir, isso passa por uma procura de opacidade, de droga, de não perceber.

Quanto à questão da felicidade, não me parece que possas dizer que não te preocupa definir o que é desde que arranjes um caminho para lá, já que seria um caminho para o nada. Nesse momento estás a dizer o que? Que é o que resultar? O que der? É essa a felicdiade de que falas? Ou é algo na linha do bem-estar? Ou no não pensar? Ou uma espécie de limbo? Só em quatro segundos já te dei tantas possibilidade diferentes e opostas até do que pode ser a felicidade que é necessário que a expliques. Porque os caminhos não são o mesmo. E dizer que O que te interessa é o caminho é uma espécie de febre pós-modernista de "eu deixo-me ir" que pode estar implícita.

Por fim, quanto à morte, se é como dizes, então como não pensar nela, ou pelo menos, não a contabilizar nas minhas contas?